Dieta aos Sentimentos

30.12.14
''Não me Culpe, eu era apenas uma criança.''

Tinha uma cadeira relativamente alta na sala do preparatório, como era chamado o jardim de infância da época, essa cadeira referida sempre como A Cadeira Alta é um dos objetos que mais marcaram a minha infância, ela nem era tão importante assim, mas sempre que penso nela, ela me passa aquela imagem de imponência e rigidez. Ela foi um erro de medidas, um acidente! Oh, nossa! Claro, um acidente. Ela não deveria estar lá. Atrapalha toda a ordem e o padrão que toda boa escola particular deve ter.

Era aquela coisa de nasci para ser admirada, notada. Naquela época eu ainda acreditava em ser a melhor, em ser o destaque, até mesmo porque os resultados imediatos do meu desempenho em classe se mostravam tão imediatos. Eu acreditava em casais perfeitos, em que grupos deviam ser formados segundo as semelhanças, acreditava também que aquela cadeira e eu deveríamos pertencer uma a outra. Como um casal perfeito, uma imponência imbatível. 

Mas é claro que brigas minavam por causa daquela cadeira. O negócio era o seguinte: chegue cedo(para ficar na fila que se formava em frente a classe até que a professora, em sua bênção, chegasse e abrisse a porta) e seja rápido (do que adiantava localizá-la sem alcançá-la a tempo?).

Houve um dia em que não consegui sentar naquela cadeira, não havia sido rápida o suficiente, e de repente... Eu também não era boa o suficiente para ocupar aquele assento. Caminhei envergonhada pela falha pessoal que me arrasava para o fundo da sala. A professora olhava com desaprovação dizendo que a outra garota tinha sentado primeiro (houve um embate antes de eu sentar noutro lugar, eu e outra garota). Eu jurava que aquele lugar deveria ser meu! Afinal, fui eu quem a descobriu primeiro.   

E exigir direitos mudaria alguma coisa? A América já era dos índios antes de Colombo chegar, mas isso não mudou nada no curso da história. Nossos descendentes europeus os dizimaram para poderem continuar com suas vidinhas infelizes no continente prometido e eu, melhor aluna da classe, perdeu o trono de glória para uma caucasiana loura de corte extremamente alinhado e liso. 

Foi um soco na barriga, confesso, e minha auto estima nunca foi uma das melhores. Sou péssima nesse assunto de sentir. Eu posso nem chorar, muito menos me sentir mal com o falecimento de um parente próximo mas é provável que eu me sinta desconfortável e deprimida se  um lápis meu quebrar ou não receber a admiração desejada, por exemplo, e digo que não é a necessidade de ser o centro das atenções, (pois sou do tipo que se esconde, embora queira receber os créditos da obra, mesmo que em pequenas letras no rodapé). Meu cérebro ''esquizofrênico'' não sabe distribuir os sentimentos corretamente, é como os psiquiatras diriam ''é o excesso de uma substância química e a falta de outra''.

Colombo não teve o reconhecimento que deveria, se tivesse, a América se chamaria Colombia ou Colombus, A Cadeira Alta teve sua imponência derrotada pelo tempo e suas ações. Em língua de leigos: enferrujou.  



Quer saber? Algumas coisas crescem, cadeiras e continentes não (isso se você analisar pelo lado físico), eu cresci e pequenas coisas como a mágoa por não conseguir o que se quer também, mas nada cresce se não for alimentado. 


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2 comentários :

  1. Quando eu vi o título da postagem, eu imaginei uma abordagem totalmente diferente da que foi feita. Mas, me surpreendi com a história da cadeira alta e com a lição aprendida.
    Tantas vezes, guardamos sentimentos dentro de nós que nem colocamos para fora e que, de certa maneira, também aprendemos com isso ainda que o sentimento pareça sufocado como um nó na garganta.
    Ah, que vc tenha um ótimo Feliz 2015, Simone.
    Abraços Mika,
    Pensamentos Viajantes

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  2. Que belo texto, admiro muito seu jeitinho de escrever. ♥
    Feliz Ano Novo! Que o Senhor te ilumine e te cubra com as mais ricas bençãos!
    Obrigada por ter aparecido sempre no blog em 2014, deixando suas visitinhas e comentários, você é especial! ♥
    Beijos com carinho! Karen.
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