Todos os lugares são temporários

15.7.15

Eu não tenho medo da morte sabe, pedaços de mim morrem o tempo todo, inclua células, unhas, cabelos. Não tenho medo da vida ou de viver, tenho sim, medo do que ela pode trazer, receios a parte, o que fazer quando um lugar morre?

Eu era apenas uma criança, tenha clemência! Meu pai e eu íamos de bicicleta por uma das avenidas mais movimentadas da minha cidade até uma das melhores locadoras local alugar fitas VHS, minha cidade era sempre muito fria então eu vivia empacotada em moletons, capa de chuva ou uma blusa impermeável cor de creme que me dava dó todas as vezes que os punhos sujavam ao escrever sob a mesa da escola. Eu tinha uma galocha vermelha também, mas isso já é outra história para outro post. 

A locadora era pequena, se comparada a única locadora sobrevivente na cidade a  
CANAL 3, e tinha diversas fitas, desde porcaria sensacionalista japonesa até pornografia da mais alta patente (essa área ficava num espaço especial cercado por vidro, como um clube VIP +18). Eu e o meu pai chegávamos e eu passava meus olhos por cima de todas aquelas capas coloridas engolindo suas informações, devorando suas imagens, fascinada pelas letras de fontes diferentes, por personagens que nunca havia visto, apaixonava-me por fitas que nunca viriam a ser rodadas pelo meu videocassete preto Semp Toshiba, porque não era sempre que meu pai tinha tempo de locar, ele trabalhava muito nessa época. 

Apaixonada por cinematografia, cheiro de pipoca com manteiga e luzes amareladas, a locadora FOX era um sonho para mim. Sempre tive essa ânsia insaciável pelo desconhecido, por coisas que não eram fáceis de compreender e quando eu era pequena tudo para mim era um mistério, e uma das minhas lembranças mais dóceis era dessa tal locadora. Ir lá com meu pai, rebobinar fitas e ver de novo e de novo porque a depender do filme tínhamos que entregar em cinco a três dias.

Não me lembro quando paramos de locar fitas, aconteceu gradualmente, culpa do dvds e da pirataria, os doces dias cinzentos de pedaladas até a locadora morreram, e meus minutos, detestáveis minutos gastos rebobinando fitas tiveram seu fim. Um dia desses meu modem queimou, meu pai dirigiu comigo até uma loja de artigos de informática, então ele me perguntou ''Você lembra que lugar era esse?'', dei uma olhada em volta, do piso brilhante as paredes brancas que pareciam ter sido feitas as pressas na massa corrida, olhei para as prateleiras de vidro com poucas coisas ''Não, não tenho ideia'' respondi. ''A gente locava filmes aqui''

MEU MUNDO C
                            A
                                   I 
                                      U
''Cê tá brincando. Serio?'' foi o que eu disse em seguida e quase chorei, sou muito apegada as minhas memórias infantis. E de repente, sabe, o Egito, a muralha da China, a Estátua da Liberdade, a padaria da esquina, a escola em que fizemos o fundamental não são páreas ao tempo e aos seus momentos. Que tudo passa e isso não serve só para a dor de cabeça, cólicas e dores emocionais. Lugares são temporários, o chão pode ser o mesmo, mas ele não é resistente o suficiente ao tempo e suas ações. E o que um dia foi rotina, vira memória e fica guardada na nossa cabeça, marcada na nossa história. 

Comente com o Facebook:

4 comentários :

  1. Olá, gostei muito do teu blog!
    Já estou a seguir...
    Se puderes vista o meu blog e se gostares segue...se seguires deixa comentário :)

    http://beautifullsecrets.blogspot.pt/

    ResponderExcluir
  2. Caramba, eu sei como é esse sentimento!
    Eu sentia isso SEMPRE que passava na frente da minha antiga escola.
    Entrei na faculdade aos 16, foi completamente estranho e tudo completamente diferente do que eu tava acostumada, era muito apegada ao lugar, ao jeito, como as coisas funcionavam e etc.
    Foi aí que eu aprendi o que era nostalgia.
    Também tenho um monte de lembranças de quando era criança, de lugares e manias. Realmente, dá saudade.
    Adorei a essência do texto. Um beijo, Simone ♥

    ResponderExcluir
  3. A famosa e comumente usada palavra nostalgia representa bem esse texto.
    Sim, eu sinto falta desses dias também. Era tão gostoso ir com a minha mãe alugar um filme e depois pedir uma pizza e assistir ao filme bem enroladinha numa coberta.
    A escola que estudei o ensino fundamental é um bom exemplo de lugar que mudou, não fisicamente, mas as pessoas que frequentam são beem diferentes.

    Muito bom o texto.. Beijo

    ooutroladodaraposa.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  4. Primeiro queria dizer que amei o texto.

    Segundo, bom... é dificil mesmo. Eu também sinto umas pontadas sempre que passo em algum lugar de onde tenho memórias (da infancia ou de qualquer fase da vida) e que não existe mais.
    Que virou outra coisa.
    Da medo de que a memória, assim como o lugar, desapareça. Mas acho que essa é a vida, né?
    Lugares, momentos, pessoas... sempre partindo em algum momento.

    Beijos
    A Mente Transborda
    Curta no Facebook

    ResponderExcluir

Você não precisa de um blog para comentar <3
Pode comentar a vontade, dar sugestões bater um papo comigo e fazer criticas desde que essas acrescentem alguma coisa. Sinta-se em casa, só não vale ser grosseiro tá?